ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES PÚBLICOS
 
 
 

 
Comissões Ténicas
 
COMISSÃO DE  CIRCULAÇÃO E  URBANISMO

 

Mobilidade , Transporte Público e o Estatuto da Cidade -
desafios para um desenvolvimento sustentável
 
Valeska Peres Pinto
Este texto foi elaborado como contribuição da ANTP
para o I Congresso Nacional pelo Direito à Cidade,
realizado nos dias 15 a 17 de outubro, São Paulo/SP
 
A forma como uma cidade se desenvolve é determinada por um conjunto de forças e interesses individuais, do Estado e das organizações privadas, que se entrelaçam de forma complexa. Os futuros possíveis para a cidade dependerão muito das escolhas sociais e de organização urbana que forem feitas, e nelas estão implícitas as opções que forem tomadas em relação aos transportes e à mobilidade espacial das pessoas.
 
Os principais agentes e fatores que podem explicar o desenvolvimento urbano e suas relações com o transporte e o trânsito são: o Estado: por meio de suas políticas em cada área de atuação; o setor privado representado principalmente pela indústria de construção, pela indústria automotiva e pelos capitais financeiro, industrial e comercial; os indivíduos, sejam como seres independentes, seja como associados em algum tipo de organização, com suas necessidades e interesses específicos; os sistemas de transporte e trânsito, com suas características físicas e de oferta de serviços, que condicionam as decisões das pessoas em como usar a cidade; os processos migratórios, que podem aumentar a população da cidade ou diminuí-la, com impactos de toda ordem no desenvolvimento urbano; o valor da terra, que condiciona a localização das atividades e da população e a dinâmica da economia, principalmente no que diz respeito ao nível de emprego, à renda média das pessoas e à abertura de novos negócios na cidade.
 
Todos estes agentes e processos interagem de forma complexa, "produzindo" o espaço urbano no qual vivemos e influenciam a forma como os sistemas de transporte e trânsito são organizados e usados. O modelo de desenvolvimento urbano brasileiro é marcado pelas seguintes características:
 
- Industrialização com baixos salários - gerando um mercado residencial restrito;
 
- Gestões urbanas ( prefeituras e governos estaduais) com tradição de investimentos regressivos
  provocando áreas de acumulação de investimento em detrimento das demais.
 
- Legislação ambígua e aplicação arbitrária da lei - consagrada em Planos Diretores e
  Legislação elitista, convivendo lado a lado com o crescimento da cidade ilegal.
 
A CRISE ATUAL DO TRANSPORTE PÚBLICO
 
A crise do transporte urbano, se deve em grande parte às características específicas deste processo. Depois dos anos 50, o país optou por uma política de transporte apoiado no modal rodoviário, com o abandono de outros modos de transporte e o apoio crescente ao uso do transporte individual. O território interno do país, bem como suas cidades, foram sendo paulatinamente adaptadas para o transporte rodoviário.
Mais recentemente, a queda na inflação a partir de 1995 levou a uma estabilização econômica com impacto imediato na demanda de bens, principalmente entre as camadas de renda mais baixa que tinham sofrido muitas desvantagens no período inflacionário. Entre as classes médias, as novas condições permitiram o aumento da compra de automóveis, dado que a indústria automobilística começou a oferecer carros compactos por prestações mensais acessíveis, com uma política de juros privilegiados. Como resultado destes fatores, o aumento da frota de automóveis verificado historicamente acelerou-se.

 
Os congestionamentos provocados por este modelo de mobilidade se fazem sentir duramente sobre o sistema de Transporte Coletivo das duas maiores cidades brasileiras - São Paulo e Rio de Janeiro, como evidenciado no Estudo "Redução das Deseconomias Urbanas com a Melhoria do Transporte Público" realizado pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pela ANTP ( 1998 ), fenômeno que começa a se estender para outras cidade. O estudo aponta os seguintes resultados :
 
- Acréscimo de 30,30 % da frota de veículos e de 15,80% nos custos operacionais somente
  em São Paulo;
 
- Tempo gasto a mais pelos passageiros/ano - 506 milhões de horas;
 
- Combustível gasto a mais/ano - 258 milhões de litros
 
- Poluição ambiental - 123 mil toneladas de monóxido de carbono e 11 mil toneladas
  de hidrocarbonetos
 
Em paralelo, os investimentos no transporte público são cada vez mais insuficientes frente à demanda crescente e diferenciada, gerada pelo crescimento e urbanização da população brasileira. Somente neste último período, a frota de automóveis foi duplicada. Porém, para cada novo ônibus incorporado, mais de 50 carros foram despejados nas ruas. Menores ainda foram os investimentos destinados a ampliação das redes de Metrôs e Ferrovias urbanas.
 
A crescente motorização dos deslocamentos das famílias brasileiras, cada vez mais ávidas por possuir o seu próprio automóvel, somado a queda da performance nos serviços públicos de transporte, estão na origem da crise atual, que tem no aumento do transporte clandestino, por peruas e Vans, sua maior expressão. A depender de sua evolução, esse fenômeno ameaça a regulamentação do setor, vindo a submeter os serviços de transporte público às "regras de negócio". Este processo em curso tem implicações gravíssimas para a eficiência e a qualidade de vida nas cidades e constitui uma ameaça à sobrevivência do transporte público regular e integrado.
 
UM NOVO PROJETO DE DESENVOLVIMENTO URBANO
 
Considerando os custos sociais e ambientais do uso sem restrição do automóvel, o uso do Transporte público deve ser estimulado. Por outro lado a adoção da multimodalidade e da integração, associando a ela o próprio automóvel - áreas de estacionamento em terminais, tarifas integradas - pode resultar em ganhos para todos. A municipalização do trânsito e a possibilidade de se implantar uma gestão articulada entre o mesmo e a do Transporte público nos municípios brasileiros, pode resultar no fortalecimento de uma autoridade local única para toda a circulação, visando a reorientação da mesma por uma escala de prioridades, onde em primeiro lugar estaria a circulação dos pedestres, depois a do sistema de transporte público, depois a de mercadorias e serviços e finalmente a dos transportes individuais.
 
A melhoria do desempenho do transporte público passa por ele ter assegurado para si, vias de uso exclusivas como os corredores, da mesma forma que isto já é assegurando para o Metro e o Trem. No caso dos VLT , trolebus e VLP, a implantação de corredores se constitui na condição básica para reconquistar a credibilidade para estes modais, transformando-os em serviços atrativos para a população. Nestes casos, não só a tecnologia associada aos equipamentos é importante, mas sim a implantação de um sistema de operação e gerenciamento, que assegurem aos serviços assim prestados a qualidade de regularidade e conforto que hoje não possuem.
 
O automóvel é a principal fonte de poluição do ar, de perdas de vidas em acidentes e de degradação da qualidade de vida ambiental. A adoção do carro elétrico, embora ainda distante, poderá eliminar alguns destes aspectos negativos, mas restarão aqueles decorrentes da lógica de uma circulação apoiada em milhares de veículos individuais - a limitação do espaço urbano para todos, tanto para deslocamento como para estacionamento.
 
É necessário de um lado superar o estágio de elaboração de Planos de Transporte que se limitem a uma atitude passiva diante das profundas modificações porque passam as cidades; por outro, se faz necessário uma revisão dos principais instrumentos do Planejamento Urbano, incorporando a eles os indicadores e potenciais de controle sobre a mobilidade da população, estimulando aquelas que possam resultar numa cidade menos excludente. Estes instrumentos de Planejamento - Planos Diretores, Leis de Zoneamento e as Operações Urbanas devem considerar uma pauta comum de trabalho entre os planejadores urbanos e de transporte:
 
A - no âmbito do Macro
 
a) adotar Planos Diretores urbanos que, levando em conta a imensa parcela da cidade informal a ser incorporada aos preceitos da legislação urbanística, estimulem padrões de uso, ocupação do solo e zoneamento, que possibilitem uma melhor distribuição das atividades no território, possibilitando assim implantação de serviços como melhor utilização durante as 24 horas do dia, estimulando a instalação junto às áreas habitacionais de serviços de suporte à vida comunitária, reduzindo as necessidades de deslocamentos permanentes;
 
b) desestimular a implantação de políticas de zoneamento que contribuam para a excessiva especialização do uso do território, que acabam isolando as regiões - bairros dormitórios, zonas industriais, zonas comerciais - que geram um padrão de viagens pendular, em geral concentradas em picos, que aumenta os custos dos sistemas de transporte e provoca irracionalidades difíceis de serem minimizadas posteriormente;
 
c) promover uma política habitacional voltada à consolidação das áreas já ocupadas, mediante políticas destinadas a melhorar a sua qualidade - programas de urbanização de favelas, de recuperação de cortiços - em particular naquelas áreas onde já existe uma infra-estrutura de transporte, muitas vezes ociosa e onde as conexões entre a habitação e a cidade já estão de certa forma equacionadas, utilizando-se não só dos instrumentos urbanísticos como também dos instrumentos de tributação.
 
d) prever na implantação de novas unidades habitacionais , um conjunto de medidas destinadas a possibilitar condições adequadas de acessibilidade dos moradores a bens e serviços essenciais, que vão desde considerações relativas à conexão das unidades às redes de transporte público existentes como definição de um projeto viário conectado com o restante do viário da cidade ;
 
e) promover a consolidação de redes de transporte público, de grande e média capacidade, em corredores próprios, de forma a melhorar o desempenho geral desses serviços, assegurando condições universais de acesso e de circulação para todos os habitantes, rompendo assim com o primado do uso intensivo do automóvel;
 
f) promover uma política urbana que discipline a implantação de empreendimentos comercias e outros, a luz da quantidade de deslocamentos de pessoas e de mercadorias que provoca, de forma a minimizar ou eliminar os impactos indesejáveis que possam ter sobre o transporte público e o trânsito na sua área de influência.
 
g) Promover-se entre todos os segmentos envolvidos, um plano de circulação para mercadorias no espaço urbano, que atenda as necessidades crescentes de bens e de serviços, cujo transporte e consumo são essenciais a vida e a economia urbana.
 
h) Estimular a implantação de atividades econômicas, inclusive industriais, que submetidas como as demais atividades às exigências de respeito ao meio ambiente, promovam uma economia diversificada, contribuindo para a sustentabilidade da cidade e da região.
 
B - no âmbito setorial
 
Analisando-se a participação dos sistemas de transporte público, em particular os de massa, no desenvolvimento urbano e seu impacto na mobilidade geral da cidade,propõe-se que:
 
a) Trazer a urbanização para perto dos eixos ferroviários e para os eixos onde já estão implantados sistemas de transporte de alta capacidade, aumentando a atratividade do transporte público, combinado ao esforço de alavancagem de novos recursos para o sistema. Essa combinação envolve a adoção de medidas destinadas a promover a renovação urbana das áreas lindeiras, seja através da intervenção urbana nas áreas de entorno das estações , terminais e pontos de parada, como através de operações urbanas mais amplas, envolvendo a totalidade da extensão da via férrea.
 
b) Trata-se portanto de aumentar a acessibilidade aos sistemas estruturais, através da:
 
- integração com outros modais, em terminais em áreas mais periféricas ou integrações de passagem nas áreas mais centrais;
 
- da melhoria do acesso às estações, terminais e pontos de parada para pedestres, duas rodas ou automobilistas ( prevendo-se estacionamentos adequados)
 
- do estímulo a implantação de equipamentos de serviço público que facilitem a vida dos usuários e otimizem as suas viagens.
 
c) Promover a implantação de corredores de média capacidade, permite segregar o automóvel, utilizando respostas amigáveis para os pedestres.
 
ALGUMAS CONCLUSÕES
 
Numa economia em que a tendência é a redução das unidades produtivas, em relação ao número de pessoas empregadas por unidade e a dispersão dessas unidades produtivas no território, o transporte público com as suas redes criadas na era industrial podem ficar rapidamente obsoletas, o que justificaria a fuga para o automóvel, com todas as conseqüências nefastas que conhecemos.
 
Há portanto de se impulsionar um movimento contrário no sentido de:
 
- deter a expansão urbana , aumentar a sua densidade
 
- promover uma cidade que misture as suas funções, permitindo seu funcionamento 24 horas por dia, de forma a ser sustentável.
 
Para tal, o Estatuto da Cidade disponibiliza para os Municípios e Regiões Metropolitanas, através de ações concertadas entre Estados e Municípios, um conjunto de instrumentos que podem ser utilizados para direcionar o desenvolvimento urbano, atingindo os objetivos acima preconizados.
 
1. IPTU Progressivo no tempo, de forma a deter o esvaziamento de áreas infraestruturadas e impulsionar a ocupação de vazios urbanos;
 
2. Uso capião coletivo como instrumento para regularização fundiária e impulso a urbanização de extensas regiões, de forma a superar as restrições a implantação de infraestrutura urbana, em particular de transporte público;
 
3. Direito de Preempção e de Superfície, como auxiliares no esforço de urbanização de áreas periféricas;
 
4. Operações Urbanas e Consórcios Imobiliários como instrumentos para mobilizar recursos privados, em parceria com o setor público e para permitir a recuperação pelo poder público do fruto da valorização imobiliária decorrentes dos seus investimentos;
 
5. Estudos de Impacto de Vizinhança como instrumento vital para avaliar e propor mecanismos de minimização do impacto dos investimentos de transporte público e trânsito sobre a cidade, assim como dos investimentos em outros áreas ou decorrentes de mudanças de uso e de ocupação que impactam diretamente sobre a mobilidade.
 
O transporte público não precisar forçar a sua própria natureza para servir a uma vida urbana ecologicamente sustentável. Ele pode ser o melhor instrumento para requalificação urbana das cidades. As vantagens do transporte público não são apenas econômicas. Ao se estabelecer uma política de desenvolvimento ambiciosa, que considere importante a valorização dos espaços públicos e sua retomada para os pedestres, a transporte público aparece com todas as suas vantagens. A recuperação das áreas verdes, hoje comprometidas para estacionamentos, o aumento da acessibilidade às áreas centrais adensadas e às áreas destinadas exclusivamente à pedestres, tudo isto pode ser garantido pelo transporte público, que organizado em rede, deve assegurar o acesso a todos àqueles equipamentos de interesse coletivo como universidades, centros esportivos e culturais, museus e parques, além dos locais de trabalho. É preciso superar os objetivos que conduziram inicialmente a implantação dos serviços públicos de transporte, centrados quase que exclusivamente na oferta de viagens entre os locais de trabalho e de moradia.
 
Mais que um serviço de transporte, os sistemas públicos de transporte cumprem uma missão essencial de serviço social, necessário a manutenção da solidariedade social e de coesão geográfica de uma cidade e de uma região, assegurando o acesso a cidade para todos.

 


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