| |
|
|
|
| |
|
5) A questão da qualidade
do transporte urbano
As maiores cidades
brasileiras, assim como muitas grandes
cidades de países em desenvolvimento,
foram adaptadas nas últimas décadas
para o uso eficiente do automóvel. O
sistema viário foi adaptado e ampliado,
e foram criados órgãos governamentais
responsáveis pela garantia de boas condições
de fluidez. Este processo ocorreu paralelamente
à grande ampliação da frota de automóveis,
que aparecem como única alternativa
eficiente de transporte para as pessoas
que têm melhores condições financeiras.
Formou-se, assim, uma cultura do automóvel,
que drenou muitos recursos para o atendimento
de suas necessidades.
Paralelamente,
os sistemas de transporte público, apesar
de alguns investimentos importantes
em locais específicos, permaneceram
insuficientes para atender à demanda
crescente, e têm vivenciado crises cíclicas
ligadas principalmente à incompatibilidade
entre custos, tarifas e receitas, bem
como às deficiências na gestão e na
operação. Adicionalmente, experimentaram
um declínio na sua importância, na sua
eficiência e na sua contabilidade junto
ao público, tornando-se um "mal
necessário" para aqueles que não
podem dispor do automóvel. Conseqüentemente,
formou-se no país uma separação clara
entre aqueles que têm acesso ao automóvel
e aqueles que dependem do transporte
público, refletindo, na prática, as
grandes disparidades sociais e econômicas
da nossa sociedade. Enquanto uma parcela
reduzida desfruta de melhores condições
de transporte, a maioria continua limitada
nos seus direitos de deslocamento e
acessibilidade.
Os principais
problemas verificados com este modelo
de desenvolvimento são:
-
a produção
de situações crônicas de congestionamento,
com elevação dos tempos de viagem
e redução da produtividade das atividades
urbanas. No caso das duas maiores
cidades brasileiras, estima-se que
o congestionamento severo (quando
a capacidade da via é atingida)
esteja causando perdas anuais de
316 milhões de horas (São Paulo)
e 113 milhões de horas (Rio de Janeiro).
O impacto desta restrição de mobilidade
e acessibilidade sobre a economia
é enorme. Nas dez cidades pesquisadas
no estudo IPEA/ANTP (1998), estima-se
que as deseconomias resultantes
do congestionamento severo (quando
a capacidade das vias está esgotada)
atingem a cifra de R$ 450 milhões
por ano. Caso as demais cidades
médias e grandes brasileiras sejam
incluídas, este valor sobe para
a casa de vários bilhões de reais
por ano, sem contar as perdas devidas
aos acidentes de trânsito (que também
se estima em vários bilhões de reais
por ano).
-
o prejuízo crescente ao desempenho dos ônibus urbanos,
principalmente na forma de redução
da sua velocidade causada pelo uso
inadequado do espaço viário pelos
automóveis, com impactos diretos
nos custos da operação, na contabilidade
e na atratividade do sistema, e
nas tarifas cobradas dos usuários.
Em muitas cidades grandes do país,
a velocidade dos ônibus está muito
abaixo de 25 km/h, valor possível
de se alcançar com tratamento adequado
(gráfico 4). Em grandes cidades,
um número elevado de pessoas gasta
muito tempo nos seus deslocamentos
por transporte coletivo, chegando
em muitos casos a mais de 3 horas
por dia no caso extremo de São Paulo
(tabela 10). Adicionalmente, o tempo
de acesso físico ao sistema é dificultado
pelos problemas de oferta física
e espacial, tornando o transporte
público muito mais desvantajoso
que o transporte particular (tabela
11). A necessidade de realizar transferências
causa desconforto e aumento de custos
e tempo de viagem (tabela 12). Finalmente,
o congestionamento provocado pelos
automóveis aumenta os custos operacionais
dos ônibus, em valores que chegam
a 16% no caso da cidade de São Paulo
(IPEA/ANTP, 1998).
Gráfico
4
Tabela
10: Tempo de viagem no transporte público,
RMSP, 1997
|
Tempo
gasto/dia
|
Viagens
(%)
|
|
até
de 2 horas
|
62,5
|
|
De
2 a 3 horas
|
20,0
|
|
mais
de 3 horas
|
17,5
|
Ref.: CMSP,1997.
Tabela
11: Tempo de acesso (andando) até os
meios de transporte, RMSP, 1997
|
Modo
de transporte
|
Tempo
de acesso (minutos)
|
|
Automóvel
|
1
|
|
Táxi
|
2
|
|
Ônibus
|
6
|
|
Metrô
|
7
|
|
Trem
|
11
|
Ref.: CMSP,
1997.
Tabela 12: Número
de transferências em viagens por transporte
público, RMSP, 1997
|
Transferências
|
Viagens
(%)
|
|
1
|
26
|
|
2
ou mais
|
5
|
|
Total
|
31
|
Ref.: CMSP,
1997.
-
o decréscimo
no uso do transporte público: a
redução dos investimentos necessários
ao transporte público, a paralisação
de obras iniciadas e, em alguns
casos, o abandono de sistemas já
constituídos, levam à queda no nível
de serviço, na contabilidade e na
atratividade do transporte público.
Paralelamente, a manutenção de grandes
diferenças de qualidade estimula
o uso do transporte individual para
os setores de classe média. Deve-se
lembrar também que a tarifa do transporte
público tornou-se relativamente
mais cara com o passar do tempo
(gráficos 5 e 6). Adicionalmente,
o transporte regular vem enfrentando
a concorrência do transporte clandestino,
que captou parte da demanda e agravou
a situação econômica do sistema
regulamentado. Nas cidades grandes
e médias do país, o número de passageiros
utilizando o transporte público
vem caindo (tabela 13 e gráfico
7). Finalmente, o custo da gasolina
vem decaindo recentemente, facilitando
o uso do automóvel (gráfico 8) A
maior parte dos sistemas sobre trilhos,
representando grandes investimentos
da sociedade, encontra-se subutilizada
(tabela 14)
Tabela
13: Declínio do uso do transporte público
por ônibus no Brasil, 1995-97 cidades
selecionadas
|
Tipo
de Cidade
|
Passag./ano
1995 (milhões)
|
Passag./ano
1997
(milhões)
|
Redução
(%)
|
|
Capitais
(1)
|
7.136
|
6.530
|
8,5
|
|
Cidades
médias (02)
|
960
|
876
|
8,8
|
(1) 21 capitais
(2) 18 cidades médias
Ref.: ANTP, 1997.
Gráfico
5

Gráfico
6

Gráfico
7

Gráfico
8

Tabela 14: Uso
dos sistemas sobre trilhos, Brasil,
1997.
|
Modo
|
Cidades
|
Rede
(Km)
|
Passag./dia
(mil)
|
Passag./Km-dia
|
|
Trem
|
8
|
786
|
2.815
|
3.584
|
|
Metrô
|
2
|
69
|
2.631
|
38.134
|
Ref.: ANTP,
1997.
-
o aumento
e a generalização dos acidentes
de trânsito: O Brasil apresenta
índices elevadíssimos de acidentes
de trânsito - dentre os maiores
do mundo - dada a incompatibilidade
entre o ambiente construído das
cidades, o comportamento dos motoristas,
o grande movimento de pedestres,
e a precariedade da educação e da
fiscalização do trânsito. O Departamento
Nacional de Trânsito registrou em
1997 mais de 30 mil mortes no trânsito
do país, e mais de 260 mil feridos.
Estes números podem ser considerados
subestimados, frente ao subregistro
e à ocorrência de mortes após o
acidente. O custo global pode ser
estimado em vários bilhões de reais
por ano, sem contar os prejuízos
aos que adquirem deficiências físicas
permanentes (tabela 15). Nas grandes
capitais, o maior número de mortos
está na condição de pedestre - em
Belo Horizonte perto de 80%, em
São Paulo 60% -, atestando a violência
do trânsito brasileiro. Os índices
médios verificados em grandes cidades
brasileiras são muito superiores
aos de cidades de países desenvolvidos
(tabela 16).
Tabela
15: Acidentes de trânsito no Brasil,
1997.
|
Tipo
|
Número/ano
|
|
Acidentes
c/ vítimas
|
215.287
|
|
Feridos
|
266.925
|
|
Mortos
|
30.430
|
|
Veículos
envolvidos
|
135.242
|
Ref: DENATRAN,
1997.
Tabela
16: Índices de acidentes em áreas urbanas,
Brasil e exterior, 1997
|
Cidade
|
Mortos/10.000
veículos
|
|
Belém
|
18,9
|
|
Manaus
|
18,1
|
|
Salvador
|
8,3
|
|
Recife
|
8,1
|
|
Belo
Horizonte
|
6,2
|
|
Brasília
|
5,2
|
|
Rio
de Janeiro
|
4,8
|
|
São
Paulo
|
4,3
|
|
Nova
Iorque
|
1,6
|
|
Tokyo
|
1,1
|
Ref: DENATRAN,
1997 para cidades Brasileiras e CET,
(1992 e 1997) para cidades de outros
países.
Gráfico
9: relação entre as áreas de via ocupadas
por usuário
de auto e ônibus,
pico da tarde, várias cidades, 1998.

|
Ref:
DENATRAN, 1997 para cidades
Brasileiras e CET, (1992 e
1997) para cidades de outros
países.
|
-
a necessidade
de investimentos crescentes no sistema
viário: para atender à demanda
crescente do uso do automóvel, ocorrem
contínuas adaptações e ampliações
do sistema viário, freqüentemente
com custos elevados; considerando
que o consumo do espaço viário é
altamente diferenciado pela renda
- sendo muito maior no caso de quem
usa o automóvel (gráfico 9) - ,
esta política desvia recursos que
poderiam ser utilizados para melhorar
as condições do transporte público;
-
a violação
das áreas residenciais e de uso
coletivo, bem
como a destruição do patrimônio
histórico e arquitetônico, devido
à abertura de novas vias, ao remanejamento
do tráfego para melhorar as condições
de fluidez e ao uso indiscriminado
das vias para o tráfego de passagem.
-
a produção
de grandes deseconomias urbanas:
como resultado deste crescimento
descontrolado e da desorganização
dos sistemas de transporte urbano,
têm sido geradas grandes deseconomias
para a sociedade brasileira, em
termos de congestionamento, poluição,
consumo de combustíveis e uso do
espaço viário. Recente estudo da
ANTP e do IPEA feito em dez cidades
brasileiras fez a primeira estimativa
sistemática destas perdas (tabela
17).
Tabela 17: Desperdícios
anuais em dez cidades brasileiras1
devido ao congestionamento severo (vias
com capacidade esgotada), 1998.
|
Tipo
de desperdício/excesso
|
Quantidade
anual
|
|
Autos
|
Ônibus
|
|
Tempo
de viagem
|
250
milhões horas
|
256
milhões horas
|
|
Espaço
viário2
|
8,7
milhões m2
|
---------
|
|
Ônibus3
|
------
|
3.342
véiculos
|
|
Combustível
|
251
milhões litros
|
7
milhões litros
|
|
Monóxido
de carbono
|
122
mil toneladas
|
0,7
mil tonelada
|
|
Hidrocarbonetos
|
11
mil toneladas
|
0,3
mil tonelada
|
-
Belo Horizonte,
Brasília, Campinas, Curitiba, João
Pessoa, Juiz de Fora, Porto Alegre,
Recife, Rio de Janeiro, São Paulo.
-
Espaço requerido
para circular e estacionar.
-
Ônibus que
devem ser colocados em circulação
para compensar a queda de velocidade
causada pelo congestionamento, onerando
os custos de operação.
Ref: IPEA/ANTP,1998.
Referências
Anfavea (1997),
Anuário Estatístico, São Paulo.
ANTP (1997) Anuário Estatístico
dos Transportes, São Paulo.
______________________
(1998) A escolha dos caminhos do Brasil,
Revista dos Transportes Públicos
80, pp 7-24.
Cia de Engenharia de Tráfego
CET (1992) Acidentes de Trânsito
em São Paulo, São Paulo.
______________________
(1997) Acidentes de Trânsito em São
Paulo, São Paulo.
Cia de Saneamento Ambiental
Cetesb (196) Relatório anual da qualidade
do ar, São Paulo.
Cia do Metropolitano de São Paulo
CMSP (1997), Pesquisa Origem
destino, São Paulo.
______________________
(1998), Tarifa, demanda e resultado
econômico-financeiro, relatório interno,
São Paulo.
Departamento Nacional de Trânsito
Denatran (1997), Acidentes de
trânsito no Brasil, Brasília.
Geipot/MT (1997), Anuário Estatístico
dos Transportes, Brasília.
IBGE (1996) Censo demográfico
do Brasil, Brasília.
IPEA/ANTP (1998) Redução das
deseconomias urbanas com a melhoria
do transporte público, Brasília.
Lima , Ieda Maria (1998) A crise
no transporte urbano: o que o governo
federal tem a ver com isso?, Revista
dos Transportes Públicos 81, pp 31-52.
Kandir, Amir (1999), Financiamento
dos municípios brasileiros, Revista
dos transportes Públicos 82, pp 107-116.
Ministério de Minas e Energia
(1996) Balanço energético nacional,
Brasília.
Ministério dos Transportes (1970
e 1990) Frota de veículos do Brasil,
documentos internos, Brasília.
Documentos
utilizados e ainda não publicados:
Junqueira, Laurindo
Martins (1998) "A cidade, o transporte,
o trânsito e a crise", documento
interno da ANTP, São Paulo.
Neto, Osias Baptista (1995) "O
modelo condominial de gerenciamento
de transporte metropolitano", documento
apresentado à Comissão de Transportes
Metropolitanos da ANTP.
|
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Públicos
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