ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES PÚBLICOS
 
 
 

 
Circulação de Vida - CCU/1995

 

X CONGRESSO BRASILEIRO DE TRANSPORTE URBANO

São Paulo – 26 a 30 de junho de 1995

Tese da Comissão de Circulação e Urbanismo da ANTP

CIRCULAÇÃO  DEVIDA  

COMISSÃO DE CIRCULAÇÃO E URBANISMO DA ANTP

 

Nazareno Stanislau Affonso - Presidente (ST/DF)

Antonio Carlos Miranda - Relator  (DMTU/DF)

 

Alexandra Reschike  Affonso (Brasília/DF)

Aurélio Hauschild (Metro/DF)

Carlos Alberto Batinga (Jão Pessoa/PB)

Cristina Baddini Lucas (Porto Alegre/RS)

Eduardo Vasconcellos (São Paulo/SP)

Flávio Augusto Gomes (DSV/DF)

Gilney Viana (Dep. Federal/MT)

Jurandir Fernandes (Campinhas/SP)

Jussara Bellavinha (BHTRANS/MG)

Ligia Miranda Christ (Porto Alegre/RS)

Marilita Gneco Braga (COPPER/RJ)

Raquel Rolnik (Instituto Polis/SP)

Ricardo Neves (Inst. Tecn. Para o cidadão-ITC/RJ)

Roberto Scaringella (Inst. Nac. de Seg. no Trânsito/SP)

Sérgio Guimarães (Cuiabá/MT)

 

                                Depois de três décadas de campanhas, reuniões de trabalho, discussões em seminários e congressos, estamos de volta a mais um encontro com a comunidade técnica dos transportes para debater um assunto infelizmente tão resistente como uma bactéria produzida em laboratório  e tão recorrente como as gripes em organismos debilitados - o acidente de trânsito.

A Introdução que Sempre Choca

 

                                Vivemos hoje no trânsito de nossas cidades um verdadeiro “apartheid  motorizado”.                                                                

                                “Nesta avenida (no Rio de Janeiro) vindos da recém-batizada Avenida Ayrton Senna, os carros passam a rodar mais velozmente deixando para trás os engarrafamentos da Zona Sul. Entre estes, muitas BMWs, Mitsubishis e Mercedes voam ao longo das pistas escuras, indiferentes aos numerosos grupos de pessoas que aguardam de um lado e outro da via.

                                Assim como Rosilene, milhares de outros pedestres - peões, faxineiras, empregadas, comerciários - aguardam longo tempo por uma redução no fluxo de carros para atravessar correndo a pista. Uma espera nervosa e angustiada que dura muito tempo, no escuro, com medo dos assaltos, vendo os seus ônibus parando do outro lado e a hora de chegar em casa cada vez mais distante.

                                Rosilene resolve arriscar e corre. Porém, desta vez ela não foi suficientemente rápida. O carro que a atropelou não pára. Nem tampouco o restante dos motoristas que passam sobre seu corpo. Este, durante as próximas duas horas, segue sendo arrastado como o de um cachorro atropelado pelo fluxo contínuo de carros da Avenida das Américas.

                                A boçalidade da morte de Rosilene não foi registrada como a morte de Senna na curva do Tamburello, para que pudéssemos exibi-la de forma recorrente e didática para uma opinião pública que se emociona pelo que vê no vídeo, mas se mostra insensível e sem piedade para o que, em seu cotidiano, está sob seus olhos.”(1)

                                A presente tese realiza reflexões sobre a questão da circulação e urbanismo,  e em particular o problema dos acidentes de trânsito, a luz do conceito da fase Não-transporte, a reconquista do espaço/tempo social já manifesto em maio de 1989, durante a realização do 7º Congresso da ANTP no Rio de Janeiro. Tese esta que balizou a Tese Cidadania mais de pé no chão no 9º  Congresso/Florianópolis em 1993.

                                É preciso ser dito que não pretendem tais reflexões correrem pelo campo da originalidade nas suas abordagens. Ao contrário, seus autores têm a modéstia de apresentar uma ampla colagem sobre tudo o que já foi dito e analisado sobre o assunto. Para a vida vale a pena juntar os cacos, afinal em nossas cidades a circulação constitui de fato um débito para com os cidadãos. Mais do que nunca a CIRCULAÇÃO nas cidades brasileiras, hoje, precisa   ser   DE VIDA.

                                No entanto,  pretende ela  inclui de novos enfoques à problemática dos acidentes, assim como a exposição da carne e sangue dos seus mortos e feridos ao olhar do público. Considerando a quantidade dos apelos legais realizados sem efeitos práticos razoáveis, torna-se urgente efetuar mobilizações sociais, panelaços e que todos viremos palhaços, verdadeiro circo ambulante de reclames, de denúncias, cruzados das cruzadas mais infames, cidadãos do barulho a produzir ruídos pela vida.

                                É exatamente com tal espírito que são apresentados exemplos candentes de VIDA e MORTE, como se comparássemos as ações de Eros e de Tanatus; ou amor e morte, alegria e tristeza; ou ainda, a discrepância entre o olhar na visada escancarada para a luz e a pálpebra cerrada para as trevas.

                                A tese procura também apresentar novas e antigas  medidas práticas que, se adotadas, podem mudar o quadro do genocídio vivenciado por nossas cidades e rodovias. Vale dizer que muitas dessas medidas são conhecidas da comunidade técnica, pois já foram apresentadas em outras oportunidades em encontros de transportes. Por não terem sido consideradas por essa comunidade no cotidiano do trabalho desenvolvido nos diversos órgãos governamentais, vem aqui se submeter a uma segunda prova, esperando desta feita serem aprovadas.


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