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III
- OS GRANDES DESAFIOS DO TRANSPORTE
URBANO
A sociedade
brasileira e as entidades ligadas
ao transporte urbano têm grandes desafios
a enfrentar no curto prazo. Eles se
traduzem em torno de três grandes
eixos de ação desenvolvimento
urbano, transporte e trânsito
que devem ser trabalhados de forma
coordenada, dada a sua grande interação.
Alterações no uso do solo geram novas
demandas de transporte e trânsito;
a criação de novos sistemas de transporte
gera por sua vez alterações no uso
do solo; a mudança nas condições do
trânsito também pode gerar mudanças
no uso do solo e nas condições do
transporte público. Apenas uma ação
coordenada nas três áreas pode reduzir
os problemas e desenhar um espaço
de circulação com mais qualidade e
eficiência.
Os
grandes desafios do planejamento urbano
- O
controle do uso e da ocupação do
solo:
Os
municípios devem ter controle
efetivo sobre o seu desenvolvimento
físico-territorial, o que implica
em ter instrumentos legais de
organização do uso e da ocupação
do seu solo. Isto pode ser conseguido
pela formação de recursos humanos
adequados e pela promulgação de
normas legais pertinentes a estes
controles, principalmente os planos
diretores e as leis de zoneamento;
- A
coordenação dos projetos de desenvolvimento
urbano, transporte e trânsito:
O
crescimento desordenado a cidade
e a desconsideração dos seus efeitos
sobre os sistemas de transporte
e circulação têm causados enormes
prejuízos às cidades brasileiras.
A coordenação entre estas três
áreas de atuação pode ser conseguida
legalmente criando-se normas
que obriguem à análise conjunta
dos impactos dos projetos urbanos
e institucionalmente, pela
união das equipes responsáveis
pelas três áreas em um órgão municipal
apenas (mesmo que com departamentos
separados, como no caso de grandes
cidades). Este desafio é grave
também nas regiões metropolitanas,
frente aos conflitos institucionais
e legais, devendo-se providenciar
o arcabouço jurídico-institucional
(onde ainda não houver) e desenvolver
novas formas de gestão coordenada
de planos e projetos, seja por
meio de entidades estaduais ou
por intermédio de consórcios municipais;
- O
controle dos pólos geradores de
tráfego:
Grandes
construções e ocupações que ocorrem
na cidade escolas, centros
de escritórios, shopping-centers,
têm grande impacto nas condições
de transporte e trânsito e precisam
ter sua instalação submetida a
regras e limites definidos pela
municipalidade. O novo Código
de Trânsito Brasileiro torna esta
análise obrigatória.
- A
defesa do patrimônio histórico e
arquitetônico das cidades:
Este patrimônio tem sido destruído pelo crescimento
desordenado e pela criação de
sistemas agressivos de circulação
de veículos. A sua defesa pode
ser organizada por instrumentos
legais, principalmente aqueles
referentes ao plano diretor da
cidade e com estímulos através
de políticas tributárias e fiscais;
Os
grandes desafios do transporte público
- a
garantia da prioridade política: o
crescimento das cidades brasileiras
não pode continuar sendo conduzido
pelo desenvolvimento caótico e pelas
necessidades do transporte individual.
As mudanças necessárias dependem
principalmente de um grande esforço
político para posicionar o transporte
público como única alternativa viável
para estruturar o desenvolvimento
futuro das cidades brasileiras.
O desafio é mobilizar os aliados
e a opinião pública para apoiar
a prioridade efetiva dos sistemas
públicos de transporte, em termos
financeiros e operacionais.
- a
reconquista da confiança: devido
aos problemas citados, o transporte
público vem há muito perdendo prestígio
junto à opinião pública, à classe
política, às entidades civis e empresariais,
e aos próprios cidadãos que dele
dependem. Assim, é fundamental trabalhar
para reverter esta situação, demonstrando
as vantagens do transporte público
e sua condição única como estruturador
do desenvolvimento urbano que se
deseja para o Brasil. O sucesso
deste esforço vai depender também
do aumento na eficiência e na qualidade
do transporte público, o que está
ligado a uma série de ações paralelas.
- a
melhoria da qualidade dos serviços:
a garantia de um espaço adequado
para o transporte público dependerá
também da melhoria da sua qualidade.
Esta melhoria deve expressar-se
em todas as áreas, destacando-se
os aspectos tecnológicos (veículos),
gerenciais (capacitação dos operadores),
de atendimento (cobertura física
e temporal), de integração, e de
informação ao usuário.
-
o
aumento da eficiência da operação:
a atratividade e a confiabilidade
do sistema dependerão das sua condições
operacionais, que estão diretamente
ligadas às condições de circulação.
Assim, é fundamental garantir espaço
viário e condições adequadas de
trânsito, na forma de faixas e vias
exclusivas, apoiadas por sistemas
de sinalização e controle eficientes.
-
a
redução dos custos e a garantia
de tarifas suportáveis:
a democratização do acesso ao
sistema depende da garantia de tarifas
suportáveis para os usuários. Esta
depende tanto do aumento da eficiência
e da redução dos custos operacionais,
quanto da concessão de subsídios
em situações específicas, sob controle
social.
-
a
conquista de novos públicos: para firmar-se como forma principal de deslocamento
urbano, o transporte público deve
ser capaz de atender também a novos
públicos, que nunca o utilizaram,
ou que o abandonaram em função da
queda no nível de serviço. Isto
requer, além da melhoria da qualidade
e da eficiência da operação, a oferta
de serviços diversificados, adaptados
a públicos e necessidades específicas.
-
a
participação da iniciativa privada:
as mudanças políticas e econômicas
estão alterando a relação entre
as esferas pública e privada, requerendo
a reorganização do Estado e da participação
da iniciativa privada no financiamento
e na operação dos sistemas de transporte
público. Estas formas de parceria
devem ser buscadas com o objetivo
central de atender ao interesse
público, preservando as funções
reguladoras e controladoras do Estado,
e utilizando a eficiência e a flexibilidade
da iniciativa privada.
a
participação da sociedade: a construção
de uma sociedade democrática implica
na ampliação dos espaços de participação
nas decisões. Na área dos transportes
públicos, isto requer a abertura
dos órgãos de gestão e dos operadores
à participação dos usuários e das
associações civis interessadas na
questão. Requer, igualmente, a descentralizarão
das decisões nos níveis mais próximos
do usuário final, sem prejuízo das
necessidades de manutenção de capacidade
mínima de coordenação e desenvolvimento
nos níveis hierárquicos mais altos.
Os
grandes desafios do Trânsito
A
municipalização do trânsito:
O
novo Código de Trânsito Brasileiro
inclui o município como parte integrante
do Sistema Nacional de Trânsito
e determina que as administrações
municipais devem se organizar para
planejar, operar e fiscalizar o
seu trânsito. O grande desafio é
aparelhá-las para que possam exercer
esta função, por meio de apoio à
sua organização institucional e
técnica. Outra medida essencial
é o apoio aos municípios para que
estabeleçam os convênios com os
órgãos estaduais (Departamentos
Estaduais de Trânsito e Polícias
Militares) componentes do Sistema
Nacional de Trânsito, para que se
atinja a coordenação dos esforços;
A
redução dos acidentes de trânsito:
O
país não pode mais suportar os custos
sociais e econômicos dos atuais
níveis de acidentes de trânsito.
As mudanças dependem principalmente
da garantia de prioridade política
ao tratamento do problema, à formação
adequada de recursos humanos técnicos
para estudar e propor soluções,
à universalização de programas de
educação de trânsito também
obrigatórios em todos os níveis
de ensino segundo o novo Código
de Trânsito e o aumento da
fiscalização sobre os motoristas
infratores; atenção especial deve
ser dada aos elementos mais vulneráveis
no trânsito, como pedestres, ciclistas
e idosos;
A
redução dos índices de poluição
atmosférica:
Esta
redução pode ser atingida por dois
caminhos. Primeiro, reduzindo a
emissão de poluentes por parte dos
veículos automotores, pela eletrificação
de corredores de transporte público,
pela aplicação de combustíveis menos
poluentes e pela fiscalização dos
níveis de emissão (agora obrigatória
pelo novo Código de Trânsito). Segundo,
pela melhor organização do uso das
vias públicas, pelo aumento da oferta
de transporte público de qualidade,
pelo uso de técnicas adequadas de
operação e otimização do trânsito
ou pela imposição de restrições
ao uso inadequado dos automóveis;
-
A
melhoria da qualidade de vida nas
cidades:
Os
impactos negativos do trânsito inadequado
podem ser minorados ou eliminados
pela reorganização do uso das vias,
de forma a dar prioridade ao tráfego
de pedestres, ciclistas e transporte
público, e pela imposição de restrições
à velocidade e ao uso dos automóveis
em áreas residenciais e de vivência
coletiva;
IV
- POLÍTICA NACIONAL DE TRANSPORTE
URBANO
É interesse
do país e da área de transporte urbano
que seja definida uma política nacional
para o setor. Ela representará a cristalização
de objetivos nacionais, referentes
à melhoria da qualidade de vida nas
cidades e da eficiência da economia.
Ela servirá como elo de ligação entre
os vários agentes do setor, representando
um conjunto comum de objetivos. Esta
política nacional se torna tão mais
necessária quão mais complexa se torna
a realidade urbana no país, reforçada
pela importância crescente das cidades
para a eficiência da economia e para
a qualidade de vida da população.
Neste contexto,
a eficiência e a qualidade do sistema
de transporte urbano revestem-se de
importância crucial. A urgência do
seu tratamento adequado prende-se
também às grandes transformações por
que passa o setor, principalmente
no que tange à regulamentação das
formas públicas de transporte, à concessão
dos serviços e ao financiamento da
infra-estrutura e da operação, bem
como às novas responsabilidades que
surgiram da aprovação do novo Código
de Trânsito Brasileiro.
A política
nacional deve refletir o anseio das
entidades e organizações ligadas ao
setor e trazer implícita a necessidade
de trabalho conjunto da sociedade
e do governo, nos seus três níveis.
Ela se diferencia, portanto, de uma
política federal centralizada, na
forma como antes da Constituição de
1988, e que foi superada pela descentralização
político administrativa ocorrida no
país.
Para ser
compatível com a descentralização
política do país e a autonomia dos
poderes, a política deve respeitar
as áreas próprias de atuação dos três
níveis de governo e limitar-se a traçar
linhas gerais e metas a serem perseguidas
de forma coordenada pelo governo,
a iniciativa privada e a sociedade.
No curto
prazo, o desafio principal é mobilizar-se
para definir ações de melhoria do
transporte urbano, que sejam formuladas
e implementadas de forma coordenada
pelos três níveis de governo e pela
sociedade. Estas ações devem representar
um posicionamento claro do poder público
a favor da melhoria da qualidade de
vida nas cidades, por meio da mudança
das condições desfavoráveis atualmente
verificadas. Este reposicionamento
implica em romper com as políticas
historicamente constituídas de apoio
e concessão de privilégios ao uso
do automóvel e revertê-las em benefício
da maioria da população e dos meios
coletivos de transporte.
O plano
correspondente à política nacional
deve estabelecer metas, a serem acompanhadas
da sugestão dos meios mais adequados
para atingi-las. Sugere-se que seja
definido um cenário desejável para
as cidades brasileiras em um futuro
próximo, caracterizado por indicadores
específicos de transporte e trânsito.
Seriam estabelecidos prazos para que
as cidades atingissem as metas. Seriam
igualmente definidas formas de financiamento
de programas específicos que fossem
considerados essenciais pelo governo
federal. Como suporte à avaliação
dos programas, os órgãos governamentais
e a sociedade deveriam dispor de dados
sobre os sistemas de transporte e
trânsito das cidades do país e de
indicadores de desempenho a serem
acompanhados permanentemente.
A seguir
são sugeridas as áreas prioritárias
de ação, os indicadores de desempenho,
as ações gerais e específicas recomendadas
e as metas propostas para o curto
e o médio prazos.
Sugere-se
que sejam definidas metas nas seguintes
áreas:
- Qualidade
de transporte: condições mínimas
de acesso físico e econômico ao
transporte público; tempos máximos
de viagem; conforto interno mínimo,
confiabilidade;
- Segurança
na circulação: quantidade e índices
máximos de acidentes de trânsito;
- Qualidade
ambiental: níveis máximos de concentração
de poluentes e de ruído;
- Qualidade
urbanística: compatibilidade entre
o uso do solo e o sistema de transporte;
- Qualidade
na circulação: índices mínimos de
eficiência na circulação de pessoas
e mercadorias;
- Eficiência
energética: consumo de energia por
passageiro transportado;
- Qualidade
gerencial dos órgãos de gerência
e das empresas.
Quadro
1: Indicadores sugeridos para as ações
da Política Nacional de Transporte
Urbano
|
Área
|
Indicador
|
Representação
|
| Qualidade
do Transporte Público |
Acesso
físico (rede)
Acesso econômico (tarifa) |
Tempo
de acesso e espera
Tarifa x Renda
Conforto no Sistema
Informação
Integração
Confiabilidade
Acesso de grupos especiais |
| Segurança |
Acidentes |
Índices
de acidentes |
| Meio
Ambiente |
Poluição |
Níveis
de Poluição |
| Urbanismo |
Uso
do Solo |
Compatibilidade
entre uso/ocupação do solo e
sistema de transporte |
| Circulação |
Fluidez |
Velocidade
e retardamentos |
| Energia |
Consumo |
Energia
por passageiro |
| Gestão |
Eficiência |
Coordenação
institucional
Mecanismos de controle |
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Copyright
ANTP - Associação Nacional de Transportes
Públicos
Alameda Santos, 1000 - 7º andar CEP: 01418 -100,
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