VII
- CONCLUSÃO
O agravamento
da crise urbana no país e as mudanças
políticas, sociais e econômicas que
no momento se processam em escala mundial,
requerem um novo esforço de organização
das cidades e dos seus sistemas de transporte.
O processo de
desenvolvimento econômico e o modelo
de transporte urbano têm agravado as
condições de circulação nas cidades,
provocando grandes deseconomias e comprometendo
a qualidade de vida. As nossas grandes
cidades formam a base da produção industrial
e de serviços do país, e terão sua importância
aumentada frente aos novos requisitos
de eficiência e competitividade que
caracterizam as mudanças econômicas
regionais (como as decorrentes da criação
do Mercosul) e mundiais.
Assim, a eficiência
da economia brasileira dependerá em
grande parte do funcionamento adequado
desta rede de cidades e dos seus sistemas
de transporte. Além disto, a capacidade
das cidades de atrair novos investimentos
e gerar empregos depende cada vez mais
da qualidade de vida que pode ofertar,
a qual está diretamente ligada às condições
do transporte urbano e da circulação
de pessoas e mercadorias.
Os custos para
a sociedade brasileira deste modelo
inadequado de transporte urbano são
socialmente inaceitáveis e constituem
importante obstáculo sob o ponto de
vista estratégico. A permanência do
modelo atual é assim incompatível não
apenas com uma melhor qualidade de vida
em uma sociedade verdadeiramente democrática,
mas com a preparação do país para as
novas condições de competição econômica
em escala global.
As políticas
urbanas têm grande importância na mudança
deste quadro tendencialmente negativo.
Dentre elas, a política de transporte
urbano é essencial para garantir melhores
condições de deslocamento de pessoas
e mercadorias, à medida em que utilize
recursos institucionais, técnicos e
econômicos para preparar as cidades
Brasileiras para um novo patamar de
eficiência. Tanto no plano estratégico,
como nos aspectos econômico e social,
esta garantia pode ser considerada um
objetivo nacional. Este objetivo deve
ser perseguido pela ação conjunta dos
três níveis de governo, dada a amplitude
e a complexidade dos problemas de transporte
e trânsito, com intensa participação
dos órgãos representativos do setor
e da sociedade.
A Associação
Nacional dos Transportes Públicos -
ANTP propôs recentemente o Projeto
Transporte Humano (PTH), que reúne
sugestões para a reorganização do espaço
urbano e do transporte urbano no país.
As propostas do PTH têm plena compatibilidade
com uma proposta de Política Nacional
de Transporte Urbano, na medida em que
colaborem, no mesmo sentido, para o
processo de revisão das posturas atuais
e para a definição de ações para a melhoria
das condições do transporte urbano no
país. Mais ainda, as duas propostas
baseiam-se no mesmos princípios e objetivos
de fortalecimento do Estado democrático,
de descentralização político-administrativa
, de aperfeiçoamento da ação do governo
e da definição de novos mecanismos de
planejamento e gestão, reunindo o Estado,
a sociedade e a iniciativa privada.
1)
Dados sobre o sistema de transporte
no país
O Brasil tinha,
em 1995, uma população de 152 milhões
de pessoas, sendo que cerca de 120 milhões
(79%) moravam em áreas urbanas. A urbanização
da população continua e estima-se que
esta proporção deva passar dos 80% no
ano 2000 e atingir 90% em 2010.
O transporte
de mercadorias por caminhões e de pessoas
por ônibus dominaram o mercado nacional
feito por meio das rodovias em áreas
rurais e urbanas. No âmbito nacional,
estima-se que 96,2% dos passageiros-km
são processados em rodovias, 1,81% em
ferrovias e metrôs e o restante por
hidrovias e meios aéreos. Em relação
às cargas, 63,7% das toneladas-km são
transportadas em rodovias, 20,7% em
ferrovias, 11,5% em hidrovias e o restante
por gasodutos/óleodutos, ou meios aéreos
(Geipot, 1997). Consequentemente, o
transporte rodoviário é responsável
pela maior parte da energia consumida
no transporte geral, sendo o óleo diesel
o combustível principal (ver tabela
4).
Em relação às
questões institucionais, tanto as ferrovias
quanto as rodovias federais estão sendo
transferidas para os governos estaduais
ou estão sendo privatizadas. Grandes
investimentos estão projetados para
construir hidrovias, para servir o Mercosul
na região sul e os mercados Asiático
e Europeu nas regiões norte/nordeste.
Em função destes investimentos programados,
a distribuição do transporte de cargas
pode mudar nos próximos anos, na direção
de um aumento no uso de hidrovias e
ferrovias.
Nas áreas urbanas,
o ônibus a diesel é a forma dominante
de transporte. Estima-se que haja em
operação cerca de 95.000 ônibus, transportando
50 milhões de passageiros por dia. Em
cinco cidades há trólebus em operação
(com uma frota de cerca de 700 veículos),
servindo uma parte pequena da demanda
diária (cerca de 290.000 passageiros).
Existem 12 sistemas ferroviários ou
metroviários em operação, a maioria
em grandes cidades ou regiões metropolitanas,
servindo cerca de 5,0 milhões de passageiros
por dia. Os trens eletrificados existem
em 6 cidades. Em 1996, havia 726 composições,
195 carros e 61 locomotivas em operação.
Nas cidades de renda média mais alta,
como no sudeste sul do país, o automóvel
particular atende grande parte das viagens
motorizadas (50% delas, no caso da Região
Metropolitana de São Paulo) (CMSP, 1997).
A indústria
automotiva nacional é composta por várias
empresas multinacionais, que produzem
atualmente 1,8 milhão de veículos por
ano (tabela 1). Os automóveis correspondem
a mais de 80% da produção (Anfavea,
1997).
Tabela
1: Brasil produção de veículos
, 1996.
|
Veículo
|
Quantidade
|
%
|
|
Automóveis
|
1.458.5760
|
81
|
|
Comerciais
leves (1)
|
279.697
|
15
|
|
Caminhões
(comerciais pesados)
|
48.712
|
03
|
|
Ônibus
|
17.343
|
01
|
|
Total
|
1.804.328
|
100
|
(1) "vans"
e "pick-ups"
Ref: Anfavea (1997).
Atualmente,
os novos automóveis são na maioria movidos
à gasolina (99%), e apenas 1% deles
são movidos à álcool. A composição da
frota atual está mostrada na tabela
2.
Tabela
2: Brasil, frota de veículos, 1997.
|
Veículo
|
Quantidade
|
%
|
|
Automóveis
|
19.354.083
|
68,3
|
|
Comerciais
leves
|
3.019.151
|
10,7
|
|
Caminhões
|
1.675.400
|
5,9
|
|
Ônibus
|
331.796
|
1,2
|
|
Bicicletas/motocicletas
|
2.924.227
|
10,3
|
|
Veículos
importados
|
1.015.055
|
3,6
|
|
Total
|
28.320.640
|
100,0
|
Ref: Anfavea
(1997).
Tendências
recentes
O número de
veículos no país tem crescido rapidamente
nas últimas décadas: de 430.000 em 1950,
o número aumentou para 3,1 milhões em
1970 e 25 milhões em 1996 (tabela 3).
Tabela
3: Brasil mudança na população
e no número de veículos, 1950
1995.
|
Ano
|
Veículos
(1)
|
População
(milhões)
total urbana % urbana
|
Hab/veículo
|
|
1950
|
426.621
|
51.937
18.782 36
|
122
|
|
1960
|
987.613
|
70.991
31.303 44
|
72
|
|
1970
|
3.111.890
|
93.139
52.084 56
|
30
|
|
1980
|
10.731.695
|
119.099
80.436 68
|
11
|
|
1990
|
15.932.848
|
143.395
110.990 77
|
9
|
|
1995
|
25.336.260
|
152.374
120.350 79
|
6
|
(1) Inclui motocicletas;
Ref: Ministério
dos Transportes (1970 e 1990) para dados
de veículos e IBGE (1996) para dados
de população.
O aumento no
número de veículos e na população levou
a aumentos expressivos no número de
passageiros-km do transporte rodoviário
(50% entre 1986 e 1996) (Geipot, 1997)
Estas mudanças
recentes estão ligadas a características
específicas do processo econômico do
país. O Brasil tem uma das piores distribuições
de renda entre os países em desenvolvimento
e tem enfrentado nas últimas décadas
elevadas taxas de inflação. A queda
na inflação a partir de 1995 levou a
uma estabilização econômica com impacto
imediato na demanda de bens, principalmente
entre as camadas de renda mais baixa
que tinham sofrido muitas desvantagens
no período inflacionário. Também entre
as classes médias, as novas condições
permitiram o aumento da compra de automóveis,
dado que a indústria automobilística
começou a oferecer carros compactos
por prestações mensais de 250 dólares
e juros relativamente baixos. Mais ainda,
para os estratos de renda mais alta,
a antiga proibição de importação de
automóveis foi suspensa, levando ao
seu rápido crescimento no país. Como
resultado destes fatores, a frota de
automóveis começou a crescer rapidamente
(ver tabela 3). Paralelamente, passou-se
a verificar uma queda no uso do transporte
público, conforme detalhado em outra
parte do artigo.
A tendência
do crescimento da população urbana e
da frota de veículos pode agravar mais
ainda a situação. Imaginando-se um crescimento
anual de 2,5% da população urbana e
de 4% da frota de veículos, pode-se
observar que até o ano 2010 poderão
ser acrescentados 54 milhões de habitantes
e 20 milhões de veículos às áreas urbanas
(gráfico 1). O grande desafio é como
acomodar, com qualidade e eficiência,
estes contigentes populacionais adicionais
e os deslocamentos que eles farão, considerando
que o aumento da frota de automóveis
e seu uso crescente tende a agravar
os problemas de congestionamento, poluição
e acidentes.