ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRANSPORTES PÚBLICOS
 
 
 

 
Transporte Público

 

O Transporte na Cidade do Século 21

Este texto foi elaborado com o objetivo de subsidiar os debates desenvolvidos nas sessões do 12º Congresso Brasileiro de Transportes e Trânsito.

     I - Introdução: A Oportunidade do XII Congresso da ANTP
     II - Justificativas: Problemas, Princípios e Objetivos
     III - Os grandes desafios do Transporte Urbano
     IV - Política Nacional de Transporte Urbano
     V - Sugestões e Ações
     VI - Resumo das Propostas Centrais
     VII - Conclusão
     Anexos
          1) Dados sobre o sistema de transporte no país
          2) A questão institucional
          3) A questão econômica-financeira
          4) A questão energética e ambiental
          5) A questão da qualidade do transporte urbano

 

I - INTRODUÇÃO: A OPORTUNIDADE DO XII CONGRESSO DA ANTP

A realização do XII Congresso de Transporte e Trânsito pela ANTP, de 14 a 18 de Junho deste ano em Recife, abre uma oportunidade única de discutir o transporte urbano no século 21 no Brasil. Não se trata de mera retórica mas da constatação da necessidade de se encontrar caminhos que preparem nossas cidades para enfrentar os seus graves problemas de transporte urbano e para garantir melhor qualidade de vida às pessoas, maior eficiência à economia urbana e melhor qualidade ambiental para a sociedade.

O objetivo deste texto é propor medidas efetivas de reorganização de nossas cidades e dos seus sistemas de transporte urbano, para discussão pela sociedade e pelas entidades públicas e privadas ligadas a estas áreas. O texto reflete a posição atual da ANTP, como resultado das intensas discussões e análises que vêm sendo feitas no seu âmbito, por seus membros e colaboradores.

As propostas vem se juntar a várias outras que têm sido feitas por diversas entidades públicas e privadas, de áreas correlatas como a área ambiental, de energia, de tecnologia, de finanças, de ciência política e de direitos humanos. Pretendemos, assim, compor um quadro geral de propostas que possa se transformar no arcabouço de um programa de ação efetivo para o país, a ser pactuado no âmbito de uma ampla discussão na nossa sociedade.

As propostas aqui apresentadas têm relação direta com as mesas redondas e painéis que ocorrerão no XII Congresso. Na realidade, os temas do congresso foram programados para abordar justamente os problemas mais graves e as soluções mais promissoras para enfrentar a crise do transporte urbano e preparar as cidades brasileiras para o novo século, na visão da ANTP e da comunidade a ela ligada.

 

II - JUSTIFICATIVA: PROBLEMAS, PRINCÍPIOS E OBJETIVOS

O agravamento da crise urbana nos países em desenvolvimento e as mudanças políticas, sociais e econômicas que no momento se processam em escala mundial, requerem um novo esforço de organização das cidades e dos seus sistemas de transporte (ANTP, 1998).

O modelo de desenvolvimento centrado no transporte rodoviário provocou um desbalanceamento no transporte de pessoas e mercadorias no país, com conseqüências negativas relevantes nos campos energético e ambiental. Os conflitos de poder entre os três níveis de governo – e dentro das cidades e das áreas metropolitanas -, agravados após a Constituição de 1998, estão dificultando a coordenação das ações de planejamento urbano, transporte e trânsito e a constituição de uma Política Nacional de Transporte Urbano, que atenda os requisitos de descentralização, representatividade e abertura para a sociedade.

A crise fiscal do Estado, o distanciamento do governo federal do problema do transporte urbano e a precariedade financeira da maioria de estados e municípios colocam grandes obstáculos à organização dos investimentos necessários à mudança nas condições atuais. Finalmente, o tipo de desenvolvimento urbano e de transporte gerou problemas graves nas cidades grandes, que tendem a ocorrer também nas cidades médias em prazo relativamente curto. Por um lado, congestionamentos crônicos, queda da mobilidade e da acessibilidade, degradação das condições ambientais e altos índices de acidentes de trânsito já constituem problemas graves em muitas cidades brasileiras.

O inadequado modelo atual de transporte urbano pode ser entendido como fator importante do "custo Brasil" (no sentido mais amplo), gerando deseconomias de grande impacto para a nossa sociedade. Por outro lado, as nossas grandes cidades formam a base da produção industrial e de serviços do país, e terão sua importância aumentada frente aos novos requisitos de eficiência e competitividade que caracterizam as mudanças econômicas regionais (com as trazida pela criação do Mercosul) e mundiais. Assim, a eficiência da economia brasileira dependerá em grande parte do funcionamento adequado desta rede de cidades e dos seus sistemas de transporte.

Os custos para a sociedade brasileira deste modelo inadequado de transporte urbano são socialmente inaceitáveis e constituem importante obstáculo sob o ponto de vista estratégico. A permanência do modelo atual é assim incompatível não apenas com uma melhor qualidade de vida em uma sociedade verdadeiramente democrática, mas com a preparação do país para as novas condições de competição econômica em escala global.

As políticas urbanas têm grande importância na mudança deste quadro tendencialmente negativo. Dentre elas, a política de transporte urbano é essencial para garantir melhores condições de deslocamento de pessoas e mercadorias, à medida em que utilize recursos institucionais, técnicos e econômicos para preparar as cidades brasileiras para um novo patamar de eficiência. Tanto no plano estratégico, como nos aspectos econômico e social, esta garantia pode ser considerada um objetivo nacional. Este objetivo deve ser perseguido pela ação conjunta dos três níveis de governo, dada a amplitude e a complexidade dos problemas de transporte e trânsito, com intensa participação da sociedade.

Assim, é necessário despertar as pessoas interessadas no problema do transporte urbano para que empreendam as ações necessárias. Somente a união de forças em torno de um novo projeto de desenvolvimento urbano, apoiado em sistemas eficientes de transporte público, poderá superar os obstáculos que estão à nossa frente.

A Associação Nacional dos Transportes Públicos - ANTP sempre se posicionou à frente das discussões pertinentes ao transporte público e, mais recentemente, do processo de discussão e aprovação do novo Código de Trânsito Brasileiro. A ANTP teve participação direta na melhoria das condições do transporte urbano no país nos seus 22 anos de existência e tem o objetivo de dar novas e importantes contribuições para ajudar a reverter o quadro tendencialmente negativo no setor. Neste sentido, a ANTP propôs recentemente o Projeto Transporte Humano, cujo objetivo principal é sugerir formas de reorganização do espaço urbano e do transporte urbano no país.

O docmento principal do projeto, o livro "Transporte Humano - cidades com qualidade de vida", lançado em solenidade no Palácio do Planalto, com a presença do Presidente da República, em Maio de 1997 aponta as diretrizes sugeridas, formula propostas de ação e indica mais de uma centenas de exemplos de práticas e projetos relevantes feitos em cerca de 30 cidades do país. O presente texto é uma continuação deste esforço, aproveitando a grande oportunidade da realização do XII Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito.

Neste sentido, os principais problemas a enfrentar, os princípios a adotar e os objetivos a alcançar podem ser assim resumidos:

Os problemas a enfrentar:

  • O crescimento desordenado das cidades, com a geração de deseconomias crescentes para toda a sociedade e especialmente para os setores de renda mais baixa, e com grandes impactos negativos no meio ambiente, no patrimônio histórico e arquitetônico e na eficiência da economia urbana;

  • A degradação crescente da qualidade da vida urbana, traduzida pela queda da qualidade do transporte público – do qual depende a maioria da população - , pela redução da acessibilidade das pessoas ao espaço urbano, pelo aumento dos congestionamentos, da poluição atmosférica e dos acidentes de trânsito e pela invasão das áreas residenciais e de vivência coletiva por tráfego inadequado de veículos;

Os princípios a adotar:

  • A sociedade democrática requer a discussão transparente e ampla de soluções para os problemas coletivos, o que implica tanto na abertura do Estado para a sociedade e os usuários dos sistemas de transporte quanto no respeito às leis e às decisões tomadas em processos democráticos legítimos por parte de indivíduos e de entidades públicas e privadas;

  • O transporte público e o trânsito são de responsabilidade do Estado, conforme definido na Constituição do país. A definição de normas gerais referentes a estas áreas, bem como o planejamento dos sistemas de transporte e trânsito e a fiscalização dos serviços prestados por entidades privadas são atribuições próprias do Poder Público; estas atribuições devem ser exercidas de forma transparente e considerando as contribuições da sociedade e da iniciativa privada;

  • A cidade é um ambiente de uso coletivo, cujo acesso por meio dos sistemas de transporte deve ser dividido democraticamente. Isto implica, no contexto brasileiro, em atribuir prioridade no uso do sistema viário à circulação de pedestres, aos ciclistas e aos meios de transporte público coletivo, especialmente os ônibus; esta nova postura deve refletir uma mudança de paradigma, por meio do qual se rompe com a formulação de políticas de apoio ao uso do automóvel e se altera as políticas de desenvolvimento urbano, transporte e trânsito, na direção da "gestão da mobilidade urbana", entendida como ação coordenada baseada em princípios relacionados ao interesse público e da maioria dos usuários;

  • O desenvolvimento do Estado contemporâneo, associado ao desenvolvimento das formas de participação política da sociedade, requerem a formação de um novo pacto de ação em torno das políticas públicas, que aumente a eficiência da ação própria do Estado e incentive novas formas de participação da iniciativa privada e da sociedade no planejamento, financiamento e acompanhamento dos projetos e investimentos.

Os objetivos a perseguir:

  • melhor qualidade de vida para toda a população, traduzida por melhores condições de transporte, segurança e acessibilidade para realização das atividades necessárias à vida moderna;

  • maior eficiência urbana, traduzida pela disponibilidade de uma rede de transportes integrada por modos complementares trabalhando em regime de eficiência, com prioridade efetiva para os meios coletivos no uso do sistema viário;

  • melhor qualidade ambiental, traduzida pelo controle dos níveis de poluição atmosférica e sonora, e pela proteção do patrimônio histórico e arquitetônico, e das áreas residenciais e de vivência coletiva contra o trânsito indevido de veículos.

   

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